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Temer optou pela sobrevivência política na queda de Parente

A saída de Pedro Parente da presidência da Petrobras é a consequência direta de um erro político estratégico do governo: a concepção de uma política de preços da companhia capaz de entregar nas bombas dos postos de gasolina aumentos diários de combustível.

Construída com o objetivo principal de mostrar ao mercado que o governo de Michel Temer seria diferente das administrações anteriores do PT, essa estratégia é agora a principal responsável pela perda do pouco capital político que restava justo no período mais importante para qualquer cacique de partido: a véspera de uma eleição nacional, restringindo ainda mais sua capacidade de influenciar na sucessão presidencial.

+ Leia a íntegra da carta de demissão de Pedro Parente

Senadoras protocolam pedido de CPI pra investigar Petrobras

Greve dos caminhoneiros opõe governadores a Temer e Petrobras

Parente jogou o jogo que estava combinado com Temer e seu ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para recuperar o valor das ações e a credibilidade da Petrobras no mercado. Mas com sete meses até o fim do ano, Temer optou pela política, não pelo mercado. A escolha é clara: o presidente ainda precisa tentar manter vivo seu governo e articula para que Meirelles defenda sua gestão na próxima campanha eleitoral. Nesse cenário, Parente era o único dispensável.

No auge da crise Parente não respondia mais pelas decisões da Petrobras

Ainda que a opção pela demissão seja uma escolha do próprio Parente, sua situação era politicamente insustentável no Planalto e no Congresso. No auge da crise, o presidente da Petrobras anunciou sozinho a primeira alteração na política de preços do diesel em coletiva no Rio. Com discurso confuso tentou explicar que congelamento de preços não era congelamento. Não colou. A coletiva não acalmou mercado, governo ou caminhoneiros. Na tarde seguinte, a presidência da companhia já não respondia mais pelas decisões da própria Petrobras.

Parente ficou no Rio e não participou da reunião em Brasília que definiu entre outros pontos as novas alterações na venda de diesel com reajuste mensal às refinarias. Se o objetivo era mostrar que a Petrobras não sofria interferência política naquele momento, paradoxalmente a política de preços da companhia caiu no colo do núcleo político do governo.

O governo finalmente percebera que a crise se tornara política e não apenas econômica. Temer se cercou dos seus ministros mais fortes, Eliseu Padilha (Casa Civil) e Raul Jungmann (Segurança Pública), e dos indispensáveis para a dimensão do problema Carlos Marun (Secretaria de Governo) e Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional). Eduardo Guardia, sucessor de Meirelles na Fazenda, era presença obrigatória para explicar o malabarismo de números a jornalistas de economia e calcular o impacto das novas medidas no rombo da União: R$ 13,5 bilhões que vão custar sacrifícios na saúde, educação e até na balança comercial. Politicamente seria difícil imaginar um impacto maior em ano eleitoral.

Afastamento de Moreira reforçou isolamento 

A submersão do ministro de Minas e Energia, Moreira Franco, era mais um sinal do isolamento político de Parente. Empossado a dois meses no MME, o amigo de longa data de Temer deixou o presidente da Petrobras queimar sozinho e evitar que o desgaste da companhia contaminasse demais a pasta cuja agenda de 2018 começou a naufragar com o engavetamento no Congresso da MP 814, a MP da privatização da Eletrobras, na primeira semana da crise dos caminhoneiros.

Mas enquanto o governo patinava os deputados e senadores se preocupavam com o impacto da crise de desabastecimento a cinco meses da eleição. Parente foi escolhido como responsável pela crise e pedidos para sua demissão vieram das tribunas da Câmara e do Senado, no caso da oposição, e em reuniões fechadas da base do governo.

No dia 22 de maio, segundo dia de paralisações, Beto Mansur (MDB/SP), vice-líder do governo na Câmara, era um dos muitos parlamentares da base que a se posicionarem contra a política de preços da Petrobras. Na mesma linha já estavam o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), e do Senado, Eunício Oliveira (MDB/CE). O governo já havia perdido o timing para agir e, se não se mexesse, perderia ainda mais o protagonismo na crise.

E Temer tentou mostrar ao Congresso algum empenho através de interlocutores. Em reunião no Planalto, segundo Mansur, o presidente “mostrou uma preocupação muito grande com a escalada dos preços dos combustíveis nos últimos meses“. Na mesma fala, o próprio deputado reconhecia: “não dá pra repassar pura e simplesmente esses aumentos (da cotação do petróleo para as refinarias)”.

Pressão no Congresso ficou insustentável

Uma semana depois, na terça-feira, 29, a crise não estava superada e a pressão sobre Pedro Parente só cresceu no Congresso. Em uma reunião da bancada do MDB na Câmara, Beto Mansur foi um dos deputados que pediram a saída do presidente da Petrobras. Em clima tenso, coube ao ministro Marun defender sua permanência. O medo era um só, a saída de Parente poderia derrubar ainda mais a cotação da Petrobras e a própria bolsa de São Paulo.

Na mesma noite a pressão subiu no Senado quando parlamentares da oposição protocolaram um pedido de CPI para investigar Parente e a política de preços da Petrobras. Entre as 29 assinaturas no documento estavam as de 11 senadores que compunham a base do governo, entre eles o ex-ministro de Minas e Energia do governo Dilma Rousseff, Eduardo Braga (MDB/AM) e Martha Suplicy (MDB/SP) e parlamentares do DEM, Podemos, PR e PPS.

A abertura da CPI está nas mãos do presidente do Senado, Eunício Oliveira, uma das maiores lideranças da dissidência ao governo Temer dentro do MDB hoje. A expectativa é que a saída de Parente enterre a CPI que só precisa ser lida pelo presidente do Senado em plenário para ser instalada.

Politicamente, a opção pela estratégia de preços da Petrobras mostrou-se um erro de cálculo bilionário que não previa a alta do dólar e do petróleo no mercado internacional. Parente já pagou por ele, resta saber quanto da fatura ainda ficará para Temer, Meirelles e para o MDB.




Guilherme Serodio é editor de Política da E&P Brasil

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