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O bloco exploratório de R$ 2,2 bilhões

A ANP divulgou um gráfico em que mostra um importante descolamento positivo, olhando-se a sequência no tempo, entre os valores do preço de petróleo atual e o bônus de assinatura obtido na 14a rodada, licitação ocorrida no último dia 27.

O leilão arrecadou R$ 3,8 bilhões em bônus de assinatura, sendo R$ 2,2 bilhões no bloco C-M-436 (maior bônus já ofertado em leilão da ANP) e outros R$ 1,1 bilhão pelo bloco C-M-411.

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Mas qual a conexão dessas duas variáveis? Quais seriam as razões do bônus do leilão ter sido tão alto?

Considera-se que os ativos são interessantes, mas que não haveria uma euforia visível sobre os seus valores, pelo menos com as informações correntes no mercado. Obviamente que, havendo informações adicionais relevantes que não estivessem explícitas, esta variável poderia tomar dimensões distintas. 

Sobre o ambiente regulatório, parece haver uma melhor percepção de simplicidade e favorabilidade das regras existentes, do ponto de vista de investidores e operadores, apesar de que os movimentos ainda parecem tímidos. Mas há, sim, no mercado, boas perspectivas.

O mercado E&P local era dominado por uma única empresa, que aponta não desejar ser mais o único operador, coincidindo com a mesma visão do governo central. Entrar neste mercado agora seria garantir uma fatia importante em região do globo interessante e geopoliticamente pouco confusa.

O mercado americano consome 19 milhões de barris por dia e produz internamente cerca de 11 milhões de barris por dia. Se o Brasil produzir, em breve, um excedente ao consumo de cerca de 500 mil a 1 milhão de barris por dia, esta quantidade poderia ter comprador assegurado em logística bastante interessante, “vertical”, sem passagens por canais, regiões politicamente complicadas, etc. 

Nunca deveria ser descartada a hipótese de um erro de cálculo no valor de bônus a oferecer, apesar de ser quase que de chance zero.

Também, o preço do barril estaria vinculado à oferta e demanda, anos de reservas já delimitadas, OPEP, acordos mundiais, entrada do shale e energias alternativas, etc. Com uma produção/consumo mundial de 100 milhões de barris por dia, o mundo vive uma estagnação de consumo e uma boa capacidade de produção futura com as reservas já provadas (mais de 10 anos, valor médio). Prever preços de petróleo bruto é algo desafiador, os erros são mais frequentes que os acertos. Há, certamente, variáveis que não dominamos e que por vezes tomam conta desse mercado tão imprevisível. Esses preços são pontuais, tempo hoje, pouca visão de futuro, por vezes apostas de trading e compra/venda do dia.

Já os valores de bônus teriam correlação com expectativas futuras, investimentos e custos locais, estabilidade regulatória e jurídica, entrada estratégica em novas regiões, geologia promissora, economia regional e mundial, capacidade de investimento.

O fato é que a diferença dos valores propostos de bônus entre o primeiro e o segundo na classificação dos blocos C-M-436 e C-M-411 superou qualquer expectativa. Foram diferenças bastante altas. 

Esperar para ver se um dia entenderemos melhor o que aconteceu na realidade.

Armando Cavanha (cavanha.com) é professor convidado da FGV/MBA

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